| Balneário Camboriú, Santa Catarina |
Depois da chamada Grande enchente de 2008, em Santa Catarina, já achamos "normal" as inundações de um metro mais ou menos. Pelo menos não arrasam com tudo e ameaçam menos as pessoas. É claro que o barro, o mau cheiro, a possibilidade de doenças e a trabalheira são terríveis. Se ficarmos fazendo a conta, vamos à loucura. É aquela coleção de fotos e filmes, lembranças dolorosas de cada verão, embora tenha havido algumas em períodos frios também.
Antes de novembro de 2008, já chovia continuamente por três meses, como aconteceu agora em 2010 em outras regiões. As catástrofes pelo menos tornaram o problema visível, para extensas áreas, tornando menos solitária a vida das pessoas dos bairros mais alagáveis. O pessoal das áreas centrais, moradores de prédios, pensa que não tem nada a ver com isso. Seu maior incômodo era o trânsito complicado, alguma água pelas canelas nas avenidas. Inúmeros prédios tiveram carros submersos em suas garagens.
Agora é bom notarem que mesmo nas áreas nobres, a água e os transtornos podem ser consideráveis. Imagine ficar encurralado no alto de prédios, subir até o trigésimo andar pelas escadas, ficar sem luz, água potável. As inundações crescentes danificam a cidade toda: rede elétrica, água. Os serviços ficam comprometidos porque os funcionários em sua maioria moram nos bairros mais humildes e não conseguem ir ao trabalho. Seja porque os caminhos ficaram bloqueados, seja porque estão tentando salvar algo em suas casas destruidas pela lama e chuvarada. Houve supermercado saqueado em Itajaí, outro funcionou precariamente por falta de empregados, e só admitia alguns clientes de cada vez, trabalhando de portas fechadas. O depósito de um dos principais mercados foi alagado. Pessoas que moram em prédios estavam aflitas com medo de ser invadidos pela mulidão que vagueava pelas ruas alagadas.
Tenho pena das pessoas humildes que pagarão prestações por anos, de móveis e eletrodomésticos, que não existem mais. Alguns não aprendem e compram móveis que se debulham, após cada enchente. O nome ficará sujo na praça, e os objetos triturados no lixão. Enquanto não houver saneamento básico, tubos para escoamento destas águas, melhor guardar o dinheiro. Afinal, há poucas gerações nossos antepassados se viravam com prego e martelo, construindo prateleiras, estantes, coisas de madeira que não derretem fácilmente. Os velhos móveis de madeira sólida têm resistido aos maus tratos.
É triste ver pessoas humildes se afundando em crediários nas Casas Bahia ou entrando numa fria, no Ponto Frio. Num país civilizado, tais produtos feitos praticamente de papelão prensado seriam considerados estelionato contra o consumidor.

