quinta-feira, 31 de março de 2011
Olá Hemingway - Adeus às armas (A farewell to arms)
Em "A farewell to arms" (Adeus às armas - 1929), um dos personagens de Ernest Hemingway se diz "groggy". Ele remou num bote a noite inteira, para fugir da Itália, cujo exército desertou, e chegar na Suiça. Ao seu lado a amada, uma jovem enfermeira britânica. Pensei que iam se afogar em meio à tempestade e a escuridão. As mãos dele estão cheias de bolhas. A moça está grávida, mas feliz e tranquila conforta o oficial. Correm o risco de ser presos, o que ainda é bem melhor do que ser fuzilado pelos italianos. O barman do hotel arrumou-lhes o bote, bebida e alguns sanduiches, além de orientar sobre como vencer os 35 km de lago, rumo ao país vizinho.
A passagem lembra que em português usamos a palavra "grogue" também e com significado similar. "Grog: a mixture of spirits, esp. rum and cold water; groggy: drunk, unsteady, shaky", segundo o dicionário Webster. Grogue: diz-se de quem está cambaleante, como quem tomou excesso de bebida alcoólica, conforme o minúsculo dicionário de português da Melhoramentos, que se vende pelas lojas de 1.99. A
curiosidade seguinte é saber quem emprestou a palavra de quem, e o que acontecerá agora com o oficial americano desertor e a enfermeira britânica.
O romance até o momento não me pareceu "bombástico", embore relate tempos de guerra, com soldados bebendo muito, mas cumpre aquela mágica de nos transportar a outros tempos e sensações. Em particular, me espanta estar em contato com Hemingway, um homem que deu cabo da própria vida. É como se eu quisesse lhe perguntar o porquê e pedir-lhe que não fizesse isso. Ainda poderia viver e escrever mais coisas interessantes, para nos ocupar enquanto remamos no bote da vida, sem saber o que nos espera na margem de lá.
As realidades se misturaram, como mágica, enquanto eu lia o "Adeus às armas", de Hemingway, que já me encantou há uns trinta anos, quando era mocinha leitora de best-sellers baratos de banca de jornal. Foram quatro horas na escuridão de uma estrada de serra deserta, dentro de um ônibus, sabendo que se chovesse ficaríamos presos entre barreiras. Talvez alguma caísse sobre nós. Há três semanas tentavam consertar a estrada e o gasoduto em baixo dela. Só o vermelho das luzes traseiras dos carros e caminhões iluminava a noite na descida da serra. O oficial americano remava no bote rumo à Suiça, eu lia para amenizar a impaciência e o cansaço de quatro dias de viagem. Torcia apenas para que nenhuma tragédia nos assombrasse em meio à noite.
Ernest suicidou-se no ano em que nasci - 1961, usando um fuzil de caça. Tinha 61 anos e problemas de hipertensão, diabetes, arteriosclerose, depressão e perda de memória. Talvez tenha seguido o exemplo do pai, que se suicidou em 1929, por problemas financeiros, a famosa grande depressão. Gran finale para um Nobel de Literatura (1954 - "O velho e o mar", que também ganhou o Prêmio Pulitzer), cuja vida foi mais que um romance de guerra e paixões.
Para aprender inglês, nesta brincadeira de correr atrás das palavras, que se mostram e se escondem, o título de Hemingway faz lembrar de "arms" = braços. Pequena palavra que tem tantos desdobramentos. "Já não sonho, hoje faço com meu braço meu viver". Os braços do aconchego da família, amigos, entes queridos. O braço do vigor físico, que saúda na chegada e na partida, que trabalha ou que destrói. "Arm" que acaba com a vida em um estampido.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ernest_Hemingway
http://en.wikipedia.org/wiki/Arm
http://news.change.org/stories/a-farewell-to-arms-for-the-ten-dollar-taliban-underway
Sobre o filme:
http://soniassrj.blogspot.com/2009/10/adeus-as-armas-farewell-to-arms-1957.html
domingo, 6 de março de 2011
O passarinho no armário
Um passarinho morto era só um dos detalhes interessantes que a tia encontrava no armário bagunçado da sobrinha. Sentia-se envergonhada quando ela resolvia aplicar os talentos de organização e invadia seu mundo, sem prévio aviso. Era querida, sotaque de barriga verde, baixinha e gordinha. Seus dedinhos arrebitados (como seu nariz) deixavam tudo dobradinho, na mais perfeita ordem. Não duraria nem dois dias. No vai e vem de menina-moleque não havia tempo para tais delicadezas.
A tia largava suas lições falando baixinho e amistosamente: menina que não fecha a porta do armário e o deixa bagunçado não vai casar. Parece que tinha razão. Até fechei a porta algumas vezes, mas arrumar era outra história. Despencava tudo enquanto procurava algo, misturava roupa limpa com usada. Sempre havia algo mais interessante ou urgente a fazer. A mãe berrando e chamando porque era hora disso ou daquilo. Deve ser uma espécie de revolta que faz com que adolescentes e jovens universitários se notabilizem por suas bagunças totais. Horror era o apartamento de uma rapaziada amiga nos tempos de "facul". A pia, um banhadão cheio de limo. Toda a louça e panelas da casa eram usadas e ali amontoadas, até que fosse inadiável chamar alguém para resolver a situação. Não eram relapsos, mas imundos.
Morávamos ao lado de um campinho de futebol, havia verde e matinhos aos redor. De um pequeno morro, despencávamos em carrinhos de "rolimã", precários, levantando poeira, ralando as pernas e braços. Neste matinho, os meninos faziam "maroteza", e alguém corria avisar aos adultos que fulano fazia sicrano de mulherzinha. No brejo ao lado, a gurizada caçava rãs ou sapos, não saberia dizer a diferença. Ficava bem longe disso e a penca de sapos pendurados em um arame era o que havia de mais repulsivo. Mesmo adulta tive pânico de sapos por muito tempo. Depois amenizou e um deles ganhou o nome de Godzila. Servia-me de modelo para fotos. Vivia no canto do gramado de minha casa. Eventualmente me fazia dar berros e saia saltando de volta ao esconderijo. Jamais o mataria. Os camundongos são mais repulsivos. Nem para fotos os quero. Hamsters são ratos de boutique, ainda que graciosos.
O passarinho morto no armário de criança era tentativa de salvar o que os meninos malvados matavam com espingardinhas de pressão. Um perigo. Aquela criançada toda da vizinhança reunida ali e alguém atirando em passarinhos. Passava mercúrio no ferimento, acomodava o bichinho embrulhado em alguma roupa e esperava o milagre, que não acontecia. A morte era irreversível. Foram muitos funerais no quintal. Uma choradeira, certa manhã, ao ver morto um dos filhotes da gata. Assim vamos crescendo e contabilizando perdas, dores, descobrindo os mistérios. O passarinho morto no armário.
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