domingo, 6 de março de 2011

O passarinho no armário


Um passarinho morto era só um dos detalhes interessantes que a tia encontrava no armário bagunçado da sobrinha. Sentia-se envergonhada quando ela resolvia aplicar os talentos de organização e invadia seu mundo, sem prévio aviso. Era querida, sotaque de barriga verde, baixinha e gordinha. Seus dedinhos arrebitados (como seu nariz) deixavam tudo dobradinho, na mais perfeita ordem. Não duraria nem dois dias. No vai e vem de menina-moleque não havia tempo para tais delicadezas.

A tia largava suas lições falando baixinho e amistosamente: menina que não fecha a porta do armário e o deixa bagunçado não vai casar. Parece que tinha razão. Até fechei a porta algumas vezes, mas arrumar era outra história. Despencava tudo enquanto procurava algo, misturava roupa limpa com usada. Sempre havia algo mais interessante ou urgente a fazer. A mãe berrando e chamando porque era hora disso ou daquilo. Deve ser uma espécie de revolta que faz com que adolescentes e jovens universitários se notabilizem por suas bagunças totais. Horror era o apartamento de uma rapaziada amiga nos tempos de "facul". A pia, um banhadão cheio de limo. Toda a louça e panelas da casa eram usadas e ali amontoadas, até que fosse inadiável chamar alguém para resolver a situação. Não eram relapsos, mas imundos.

Morávamos ao lado de um campinho de futebol, havia verde e matinhos aos redor. De um pequeno morro, despencávamos em carrinhos de "rolimã", precários, levantando poeira, ralando as pernas e braços. Neste matinho, os meninos faziam "maroteza", e alguém corria avisar aos adultos que fulano fazia sicrano de mulherzinha. No brejo ao lado, a gurizada caçava rãs ou sapos, não saberia dizer a diferença. Ficava bem longe disso e a penca de sapos pendurados em um arame era o que havia de mais repulsivo. Mesmo adulta tive pânico de sapos por muito tempo. Depois amenizou e um deles ganhou o nome de Godzila. Servia-me de modelo para fotos. Vivia no canto do gramado de minha casa. Eventualmente me fazia dar berros e saia saltando de volta ao esconderijo. Jamais o mataria. Os camundongos são mais repulsivos. Nem para fotos os quero. Hamsters são ratos de boutique, ainda que graciosos.

O passarinho morto no armário de criança era tentativa de salvar o que os meninos malvados matavam com espingardinhas de pressão. Um perigo. Aquela criançada toda da vizinhança reunida ali e alguém atirando em passarinhos. Passava mercúrio no ferimento, acomodava o bichinho embrulhado em alguma roupa e esperava o milagre, que não acontecia. A morte era irreversível. Foram muitos funerais no quintal. Uma choradeira, certa manhã, ao ver morto um dos filhotes da gata. Assim vamos crescendo e contabilizando perdas, dores, descobrindo os mistérios. O passarinho morto no armário.

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