segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O pequeno vizinho


Doeu-me ver a mochila novinha voando para cima do caminhão. Procurei bastante para comprá-la em oferta e a estava guardando para a volta às aulas. O garoto me perguntou se teria uma para lhe emprestar. É claro que os dias passaram e ele não me devolveu. Ficou sem graça quando me encontrou. "Vou lavar para devolver, sujou quando cai de bike...". Respondi que lhe dava de presente para que fosse bem na escola. "Diga a seu pai que você merecia uma bela mochila para a volta às aulas".

Logo percebi que não era só a mochila que estava sendo jogada na carroceria do caminhão. Cobertores,  bolsas, e por fim um ventilador de coluna. O menino foi embora sem olhar, nem dar tchau, em pé em cima do caminhão, segurando o ventilador. O pai não se preocupou, pelo jeito, que ele fosse cair. Fiquei pensando se ainda o veria, talvez volte para ver os conhecidos que fez aqui na rua.

Onze anos, um sorriso lindo e cativante. Tomás vivia só com o pai e deve ter ficado menos de dois meses, como inquilino de um dos cômodos da casa da frente. Mais uma criança vagando pelo mundo, em companhia de um inconsequente. Passava os dias sozinho. Às vezes o pai vinha para o almoço. Trabalhava de motorista de caminhão, entregando bombonas de água. Vieram de Curitiba, o pai estava no seguro-desemprego, a mãe havia casado de novo. Havia uma vó.

Logo nos primeiros dias, o pai o humilhou publicamente, de cinta na mão, pela rua. Era o início da noite e a conversa chamou a atenção dos vizinhos. Tudo porque na brincadeira havia machucado o rosto, perto do olho. O pai insistia em cobrar responsabilidade do garoto que havia feito isso. Acabou na porta dos vizinhos do norte, gente boa e reservada. Ficamos preocupados porque o Pernambuco era homem de poucas palavras e tinha um revólver, além de um rothweiller. A conversa foi comprida, mas creio que graças à esposa, sempre sorridente, evangélica, os ânimos foram serenados. Mesmo assim, Tomás voltou para casa apanhando de novo a cintadas.

Ainda assim adorava o pai, e falava em juntar dinheiro para comprar-lhe um óculos de presente. Pai que havia sido alcoolatra e motorista de ônibus. Ás vezes saia de caminhão para acompanhar o pai na entrega de água mineral pela região. Boa parte do tempo, passava os dias sozinho, perambulando pela rua ou mesmo muito longe. O menino fez muitos amigos entre a gurizada da rua, e inimigos também. A filha da dona da casa o acusou aos berros de ser o responsável pelo roubo da bicicleta dela, de haver deixado o portão aberto e trazido maconheiros para dentro de casa. Ironia é que o marido dela era maconheiro e não valia nada. Ele mesmo estando desempregado, pode ter consumido a bicicleta.

Lamentavelmente não era a primeira criança em situação precária que eu conhecia graças ao cortiço da vizinha da frente. Houve casos piores. Uma carioca preguiçosa, originária da rocinha, não saia para trabalhar e mandava a menininha de nove anos catar reciclado para vender. O menino pequeno de uns cinco anos era alimentado no peito, por comodidade. O pai deste filho a abandonou, após inúmeras brigas em plena rua, além de ter batido forte na menina, que não era sua filha. O conselho tutelar foi chamado. Juntaram-se novamente e continuam perambulando pelos cortiços do bairro. A carioca vaidosa, de cara bem pintada, agora ostenta um barrigão, que logo será o terceiro filho a andar sofrendo com eles pelo mundo.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Jackie e Raide


As duas amigas estavam sentadas na varanda, tomando um mate e monitorando o movimento da rua.
- Nossa, a mulher é feia e ainda por cima deixa o cabelo feito bombril comprido, espichado e pintado de preto. Para completar, usa uma blusa frente única de lantejoula prateada, que deixa atrás as pelancas à mostra chacoalhando...

- Deixa de ser rabugenta Raide. Ela se sente bem e busca ser bonita. Pior é você que já desistiu de se enfeitar.

- Ah tá Jackie, me poupe! Missão impossível. Para espantar ainda mais, ela me sai em dupla, com outra igualmente horrorosa de cabelo arrepiado, pintado de vermelho! O que é isso? Elas chegam numa idade pavorosa e acham que píntar o cabelo de vermelho vai dar um "up"? Para pintar o cabelo de vermelho uma mulher tem que ser bonita. Estas coroas feias deveriam se pintar de invisível.

-Amiga, que ressentida! Elas provavelmente têm quem aprecie o material, nem que seja um barrigudo daqueles que gosta de "queimar uma carninha" no domingo, arrotar maionese e gritar vendo futebol, enquanto coça os joanetes, estendido no sofá. E nós ficamos aqui com este ar de "O diabo veste Prada", made in Brusque, sozinhas.

- kkkkkk Imagine aquela do filme passeando pelas ruas do bairro, para arrumar inspiração para a última moda em NY. Raide, por falar de Brusque, precisamos dar uma passeadinha por lá para comprar uns presentinhos para os próximos niver da família. Quem sabe dou uma frente única de lantejoula prateada para a cobra da minha cunhada????

- Beleza, a Antônio Heil que nos aguarde. E os marrecos que se cuidem!
- Desta vez vê se não cai no radar por excesso de velocidade. Aquela multa é de lascar!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O bêbado bate à porta

24/09/05 - O bêbado empacou no portão de lata e fez a campainha disparar. O jeito foi tirar o interfone do gancho. Fui lá espiar quem seria a altas horas. "Eu te mato", balbuciava ele para a cachorra que latia por baixo do portão. "Vai tomá no cú", gritava para os outros cachorros da vizinhança que latiam em solidariedade. Fiz a cachorra calar-se e fiquei observando o homem. Em pé, apoiado no muro com uma mão, ele falava sozinho. Calça jeans desbotada, tenis cinza, uma japona. Barbudo e de cabelo crespo, com uma rodela calva no alto da cabeça. "Tenho fome", disse uma vez, como se falasse com o portão. "Eu te mato, sou lageano", repetia ao cachorro. Desisti de falar com ele. Chutava o portão de lata, fazendo barulho. Deu medo. Podia invadir a casa. Os cachorros atacariam. Felizmente havia vizinhos. O homem era forte. Depois que foi embora, abri o cadeado e desentalei o botão da campainha, que havia ficado preso e tocava sem parar.

Dentro de casa, dei graças aos céus por não ter que suportar nenhum bêbado e suas agressões, como acontece com tantas mulheres, famílias. Celebrei meu parco e valioso conforto, a minha segurança. Fiquei pensando onde o bêbado moraria, e torci para que chegasse lá mais sóbrio, sem maltratar ninguém.

Sinfonia do amanhecer

28/05/05 - O dia está cinza e carregado. Nem quente, nem frio. Corre um ventinho suave e pode-se estar de manga comprida, chinela e meia. As árvores meio peladas e desbotadas. Acordo com uma profusão de sons da vizinhança. O samba no rádio do vizinho de trás, que capina o terreno. O mecânico que arrasta ferramentas como alma penada de castelo mal-assombrado e testa o motor de um carro acelerando, num vai e vem ensurdecedor. Passarinhos gorgeando. Cachorros latindo, tanto por perto quanto ao longe. Criançada e carros. Para coroar a sinfonia do bairro, um grande foguetório marca a inauguração de habitações populares. Duzentas e 50 pessoas tiradas da precariedade da beira de um riacho fétido, para dar lugar a uma avenida. Os predinhos são um monumento à precariedade pública.

Segunda caneca de café, carregada de pensamentos, como as nuvens cinzas. Quero ficar recolhida neste sábado e domingo, arrumar a bagunça física ao redor, mas especialmente a mental. Agora passa um pequeno avião e uma moto, dando continuidade à trilha sonora deste sábado de agosto. Uma betoneira recebe, no seu looping, pazadas de areia, brita, cimento...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A realidade dos sonhos

Os tempos felizes de garota haviam acabado. Aquela ingênua felicidade, quando desejava algo e as coisas aconteciam. Achava que isso era Deus ouvindo seus desejos. Aos poucos foi pensando que ele não era bom para as pessoas em geral. Gente que não ganhava nada do que pedia. Estava com 25 anos e tantas coisas haviam dado errado, realidade distante dos sonhos.

Agora este aborrecimento kafkiano. Seus papéis, que deveriam ter sido renovados para mais um ano, foram devolvidos. A maldita secretária do mestrado errou o semestre na declaração. Saiu correndo de lá sem conferir e deu nisso. Como não se pode repetir semestre, a burocracia cucaracha desta esbórnia de país, brecou. Ia ter que fazer a via sacra novamente. E com medo de que descobrissem que trabalhava num jornal. Ficou o pavor de sofrer retaliação do funcionário, que atrevidamente enfrentou ao reclamar da recusa de sua licença para trabalhar, enquanto termina o curso.

Silêncio

Silêncio (falante) da noite
chuva, pássaros, vento
ventilador, zumbido
computador, madrugada
passarada, café da manhã

Divagar


Devagar com pressa
Dê vagar compressa
Divagar, compre essa
Diva agar com pressa
Divaga ar compre essa
Dê vaga arco mmm
Ando devagar porque
Já tive pressa
Press essa
Pré es
ssssss

Hepzibah 2


Ao conhecer a velha senhora de Nathaniel Hawthorne, fiquei curiosa sobre o nome. É bíblico, de origem hebraica e significa "my delight is in her". Não é muito popular. Há também uma personagem de comics, Marvel, que apareceu em X-men, 1977. Nada mais distante de minha Hepzibah, lady puritana da Nova Inglaterra, das bruxas de Salem, do solar amaldiçoado da família Pyncheon.

Mergulha-se na história e surge o medo de que o fim seja terrível, de arrasar. O final é, porém, interessante, quase cômico, positivo. Não se rouba o prazer de quem não leu. Eu mesma li sem prévia informação, para mergulhar na surpresa. Depois, vem o prazer de esmiuçar detalhes, remoer os enigmas.

Já a personagem dos Marvel nasceu no planeta Tryl'sart, enquanto outra Hepzibah é citada nas histórias de J.K. Rowling, assassinada po Voldemort. Nestas não reparei ainda. 

http://newarrivals.nlb.gov.sg/itemdetail.aspx?bid=12793004

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Hepzibah, the old lady, of Hawthorne

Ultimamente tenho convivido com uma velha senhora, passada dos 60, chamada Hepzibah. Ela entrou na minha vida quando finalmente consegui escapar do rádio, tv, notebook, a rotina acelerada de vai e vem, casa, cachorro, buzinas, zumzum ao redor e ao longo do bairro, a zoeira da cidade.

Um velho livro amarelado de papel é como uma prega no tempo, que nos permite mergulhar numa mágica evasão, para voltar renovados, grávidos de ideas e relações. A vida triste de Hepzibah me reconfortou, e com ela tenho perambulado pela "Casa das sete torres" (The house of seven gables).

O livrinho veio de um sebo próximo à Avenida Brasil, indício de avanço em Balneário Camboriú. Vários sebos surgiram nos últimos tempos, nesta cidade que é um deserto cultural.