quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O bêbado bate à porta

24/09/05 - O bêbado empacou no portão de lata e fez a campainha disparar. O jeito foi tirar o interfone do gancho. Fui lá espiar quem seria a altas horas. "Eu te mato", balbuciava ele para a cachorra que latia por baixo do portão. "Vai tomá no cú", gritava para os outros cachorros da vizinhança que latiam em solidariedade. Fiz a cachorra calar-se e fiquei observando o homem. Em pé, apoiado no muro com uma mão, ele falava sozinho. Calça jeans desbotada, tenis cinza, uma japona. Barbudo e de cabelo crespo, com uma rodela calva no alto da cabeça. "Tenho fome", disse uma vez, como se falasse com o portão. "Eu te mato, sou lageano", repetia ao cachorro. Desisti de falar com ele. Chutava o portão de lata, fazendo barulho. Deu medo. Podia invadir a casa. Os cachorros atacariam. Felizmente havia vizinhos. O homem era forte. Depois que foi embora, abri o cadeado e desentalei o botão da campainha, que havia ficado preso e tocava sem parar.

Dentro de casa, dei graças aos céus por não ter que suportar nenhum bêbado e suas agressões, como acontece com tantas mulheres, famílias. Celebrei meu parco e valioso conforto, a minha segurança. Fiquei pensando onde o bêbado moraria, e torci para que chegasse lá mais sóbrio, sem maltratar ninguém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário